Felicia
Lendo a seção de
falecimentos do Estadão, um nome chamou à minha atenção:
Felicíssima. Estava lá: “Felicíssima de Jesus
Alves. Aos 93 anos. Filha do sr. João Manoel Alves e de d. Delminda
dos Anjos, falecidos, era solteira. O enterro realizou-se no cemitério
do Santíssimo Sacramento". Fiquei imaginando que santa criatura
deveria ser essa velhinha: além do nome, era de Jesus, sua mãe
dos Anjos e foi enterrada no Santíssimo Sacramento. Deve estar
no Céu...
Enquanto divagava, continuei a ler os outros óbitos e qual não
foi o meu espanto ao ver que todas as mulheres que lá estavam (dez,
ao todo), eram solteiras! A mais velha, 94 anos; a mais nova, 35. Apenas
esta ainda tinha a mãe viva; as demais, órfãs. Mariana,
Felicíssima, Rosalina, Célia, Amélia, Alzira, Hermínia,
Aparecida, Cleufe e Maria Paz. Esta deixa filhos; as outras, nem menção
de filhos ou sobrinhos. Engraçado: nenhuma teve irmãos?
Quem mandou colocar o necrológio no jornal?
Rosalina Antônia Lucia foi enterrada no Quarta Parada (não
seria mais apropriado Última Parada?), no Brás. Fico imaginando-a
como uma zia italiana, de largos gesto, voz nasalada, mãos de fada
na cozinha, morando com alguma irmã casada, cuidando dos sobrinhos,
encrencando com o cunhado. Seria uma daquelas casas típicas do
velho Brás: duas janelas na frente, platibanda, portãozinho
de ferro batido, entrada lateral, porão e quintal com jardim e
horta, além da parreira. Na sala, o retrato dos nonnos e de outros
parentes, um Sagrado Coração e o relógio carrilhão.
Hermínia Kogl, cemitério da Vila Mariana, devia ser uma
frau alemã, ou melhor, fraülein, visto que solteira. Morava
sozinha num sobradinho que foi dos pais, com jardimzinho na frente, cheio
de amores-perfeitos e begônias. Tinha um gato siamês e um
velho cocker spaniel. Fazia maravilhosas äpfelstrudel e sempre levava
um pedaço para a vizinha da frente, amiga de quarenta anos. Falava
arrastando os erres: senhorr, florr, cantarr...
Maria Paz foi cremada; não tem lugar onde possam levar-lhe flores.
Tomara que, agora, receba a paz prometida, se não a teve enquanto
viva. Tornou ao pó antes de todas. Cleufe Maria Modena (nome diferente,
lembra alguma divindade grega), foi enterrada no cemitério do Horto
Florestal. Repousa no meio do verde, sem a barulheira dos outros cemitérios
da cidade perto de ruas movimentadas.
Célia Nunes de Siqueira foi enterrado no cemitério da Consolação.
Pelo jeito, quatrocentona; isso, de tradicional família paulista,
apaixonou-se por um italiano, mas o pai não permitiu o casamento.
Morreu solteira, mas não traiu o seu amor. Morava num casarão
em Higienópolis, já sem os móveis franceses e as
pratarias de família, vivendo da renda de uns aluguéis.
Curioso: até agora só imaginei histórias amenas,
com anciãs bondosas. E se alguma delas fosse uma típica
solteirona, amarga, de língua viperina, e tivesse verruga com pêlo
na ponta? Sim, aquela que não dava sossego, sempre criticando,
metendo sua colher torta em tudo. Os parentes quase soltaram rojões
ao saber da morte da velha. É uma hipótese.
Mas voltemos ao ponto inicial: dona Felicíssima. Coitada, como
poderia ser feliz se já havia perdido os pais, irmãos, amigos,
enfim, todos de sua geração? E não ter se casado,
não ter tido filhos (se bem que isso não é garantia
de felicidade)? Devia ser triste, imersa em suas lembranças, talvez
doente numa cama ou num asilo: triste e doente. Pobre dona Felicíssima...
Fico pensando em ir ao cemitério e levar-lhe algumas flores, mas
de que adiantaria?
Bem, já que estou imaginando tudo isso, vou acreditar que ela recebeu
muitas flores em vida, não casou porque não quis, pois pretendentes
não faltaram, teve uma família que a amou muito, teve uma
vida boa e tranqüila, com saúde até o fim, e morreu
como sempre viveu: FELICÍSSIMA.
Postado por : william;
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