Fatos - Jornal do Cemitério.
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No passado mês de Abril, a junta de Baguim do Monte, em Gondomar, comunicou a todos os habitantes da freguesia e demais possíveis interessados que, até final da semana, seriam cortados os eucaliptos que tinham crescido junto ao muro do cemitério «e cujas copas invadiam e sujavam as campas». A remoção de tais empecilhos era desejo antigo do povo local, finalmente consumado graças ao tacto e elevação com que a junta tratou do assunto e à atitude colaborante dos proprietários das árvores. (Comunicado completo n'A Sombra Verde.)
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Se, por artes do Maligno, se
desse tal reviravolta no espaço-tempo que a mesma junta de freguesia
se visse com o cemitério de Kensal Green à sua guarda, é
de crer que os nossos autarcas desfalecessem de horror ainda antes de
porem mãos à obra: árvores grandes e muitas, alimentado-se
dos mortos e lançando ao chão cascatas de imundíssimas
folhas; vegetação rompendo por entre pedras tumulares quebradas,
abraçando lápides caídas ou em desequilíbrio;
relvados há muito por aparar; e, por todo o lado, a exuberância
indecorosa das flores silvestres. Mas em pouco tempo o brio arboricida
luso faria o seu trabalho; e Kensal Green ficaria tão despido e
asséptico como o cemitério de Baguim do Monte - ou, para
ficarmos por Londres, como o cemitério católico de St. Mary,
que com ele confina a poente. |
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Inaugurado em 1833, Kensal
Green foi o primeiro cemitério de Londres a ser concebido como
jardim. [Essa mesma ideia, importada de França, inspirou os cemitérios
portuenses do Prado do Repouso (1839) e de Agramonte (1855) - os quais,
apesar de menos frondosos do que deveriam ser, contrastam vivamente, pela
muita vegetação que acolhem, com o típico cemitério
português.] Desenvolvendo-se simetricamente, com caminhos de terra
batida, ao longo de um eixo longitudinal pontuado por uma rotunda arborizada,
ocupa um terreno de 29 hectares na zona postal NW10, entalado entre Harrow
Road e o braço do Grand Union Canal que segue até Paddington.
Entre sepultados e cremados, foi a última morada de mais de 250
mil pessoas, e continua até hoje em funcionamento. Não é
um cemitério para elites, embora muita gente famosa lá tenha
sido enterrada (não foi esse, porém, o caso de Chesterton).
Harrow Road e os bairros contíguos são pobres e pouco atraentes:
a mistura étnica que potenciou o sucesso de Notting Hill não
fez aqui brotar lojas trendy nem despoletou qualquer boom turístico. |
Tudo somado, Kensal
Green é dos sítios mais bonitos de Londres. É um
lugar de morte mas também de esperança; um lugar onde a
vida se perpetua na folhagem nova das árvores, no canto insistente
das aves, na azáfama miúda dos insectos. Encontrei lá
borboletas, pássaros e flores como em nenhum outro parque londrino.
Pude admirar árvores soberbas: tílias (1.ª foto), carvalhos,
áceres, azinheiras, castanheiros-da-Índia (2.ª foto),
faias, carpas e até um sobreiro, coisa rara nestas latitudes. A
nível do solo, o amarelo dos ranúnculos disputava a primazia
a uns bluebells miscigenados, hesitantes entre o azul, o branco e o rosa
(3.ª foto). E não havia campa que a natureza se houvesse descurado
de enfeitar com flores frescas. |
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